
A Flor é uma menina, no mínimo, muito medrosa. Tão medrosa que uma vez, quando um moço tentou assaltá-la, ela ficou amedrontada que o assaltante teve pena e a deixou ficar com sua carteira. Inclusive, de tão assustada que ficou, a menina tropeçou nas próprias pernas, caiu e estragou o sapatinho novo super bonito que ganhara de sua mãe. O assaltante, mais uma vez compadecido, a ajudou a levantar e perguntou se ela estava bem. Rapazinho muito gentil, eu diria.
Enfim, Flor é o que se pode chamar de "presa fácil" para as pessoas que têm o assalto por profissão . Sobretudo quando ela resolve perambular sozinha a caminho de um show na Augusta.
Flor estava feliz e serelepe caminhando pelas calçadas da Paulista quando vê o relógio e constata que estava atrasada. Aperta o passo e nem vê quando esbarra em um moleque de rua; um serzinho pequeno e mirrado que era, talvez, pouca coisa maior que sua perna.
Flor: Desculpa.
Trombadinha: Ae, loira branquela, vai se fuder, mano!
Ela mal escutou, apenas fechou a cara olhou para o relógio em cima do Conjunto Nacional e desviou do menino. Algo de irritação já se delineia no coraçãozinho de Flor: se existe algo que causa embrulho em seu estomago é esse peculiar sotaque-mano-brown.
O trombadinha desvia junto e bloqueia a passagem da minha amiguinha.
Trombadinha: É contigo mesmo, tá ligada? Vai encarar, mano?! Vai encarar?!
Flor: Não. Não vou encarar.
Ela ergue a mão e empurra o menino para o lado, liberando caminho. Mal percebeu que tinha praticamente derrubado o moleque. Flor tentou seguir caminho: estava realmente apressada. Mas ela foi novamente abordada pelo moleque, que a puxou pelo casaco.
Trombadinha: Ae, vagabunda, te fudeu! Me dá teu celular!
Flor: Não!
Trombadinha: Anda, me dá!
Flor (já irritada): Já falei que eu não vou te dar celular nenhum.
Agora o menino puxou a bolsa. Ele deve ter descoberto o botão de auto-destruição em Flor. Ela o segurou pelo braço, pegou sua bolsa de volta e, ao colocá-la novamente sobre os ombros, desvenciliou-se do trombadinha.
Trombadinha (puxando a bolsa novamente): Me dá a bolsa, féla da puta!!
Flor (berrando): Larga!! Já falei que eu não vou te dar nada!! Some, moleque! Eu tô atrasada!
E eis que ela, nesse espasmo de fúria arremessou o menino no chão. Infelizmente ele agarrou a perna de nossa amiga, que perdeu o equilíbrio e caiu de cara no chão. Nesse momento, ela pareceu acordar de uma espécie de sonho-de-um-dia-de-fúria. Em um segundo pensou no que acontecera e não sabia se deveria ter medo, do que deveria ter medo, se deveria sentir-se angustiada ou chorar, desabafando assim o imenso desconforto causado pela sensação de vulnerabilidade que sentiu naquele momento. Ficou uns poucos segundos parada, deitada no chão abraçada em sua bolsa e sequer viu quando um grupo de indies da Paulista fez o tal trombadinha sumir, como ela queria. Levantou e sua primeira reação foi, por algum motivo, ver se a bolsa, a calça e o casaco não tinham se estragado. E saiu andando a passos largos. O grupo de indies se precipitou atras dela e se aproximou para perguntar se estava tudo bem.
Flor: Fora o fato de que tentaram me assaltar agora, tudo bem sim. Brigada.
Um casal simpático, desses que correram para assustar o trombadinha foi acompanhando nossa amiga até o local do show. Lá ela não soube como agradecê-los. Limitou-se a fazê-los entrar de cara, junto com suas amigas que a esperavam praticamente na porta da balada.
No show ela cantou, daçou até o chão, pulou, gritou e se alegrou como se nada tivesse acontecido. Uma pena que no dia seguinte era ela quem estava estragada, não apenas o sapato, como aconteceu no primeiro assalto.