sexta-feira, 2 de maio de 2014

Moi non Plus

Ela estava quieta com seu notebook na mão, entregue ao tédio, quando chegou aquela notificação do Gmail. Novo arquivo no dropbox. Naquele email de disparo, uma mensagem dele, aquele ex-produtor musical decadente, entregue ao cigarro, ao álcool, ao pó, ao café, às partituras, às suas poesias nunca publicadas e letras nunca interpretadas pela voz feminina que ele queria treinar.

A voz feminina era a dela. Ele a descobriu aos poucos, a partir primeira noite que eles passaram juntos. Aquela noite (e algumas depois) ela não acreditava estar com aquele homem que parecia materializar todos os clichês do seu homem idealizado: o cara mal encarado, com jeito de mal humorado, barbudo, magrelo, cabelos desgrenhados e incrivelmente macios, a barba farta, as mãos grandes, certeiras, o rosto fino com traços fortes e um tanto caricatos envoltos em fumaça de cigarro. Ele era aquele ex-caso, talvez namoro, aquela ex-paixão intensa, quiçá a mais arrebatadora. 

"Olha o que eu achei. Eu podia ter te ensinado a cantar. Podia ter te produzido. Me liga."

Ele parecia não lembrar que ela não quisera que ele a ensinasse a cantar, muito menos ser quisera mais uma artista da sua carteira. Gostava demais dele. O suficiente para saber que o perfeccionismo obsessivo que ele dispensava ao seu trabalho mataria o romance. E foi o que aconteceu, mesmo sem que ela tivesse virado cantora criada por ele, mesmo sem aulas de canto, mesmo sem aprender a tocar Bach, mesmo sem que ela tivesse oficialmente mudado para a casa dele. Aconteceu porque ele passou a se considerar um "proto-marido", mesmo que ela o ouvisse em conversas que ele considerava sessões de terapia, mesmo que ela o tivesse salvado de duas tentativas de suicídio, mesmo que dormisse poucos dias da semana na casa dele, que ela ouvisse sempre dos amigos dele que há muito não o viam tão leve e que tenha levado na esportiva todas as indiretas a respeito de sua idade das amigas dele: ela tinha só 23 e ele 39.

Mas e aqueles arquivos no dropbox dela? Eram dois MP3. Eles o gravaram num dia em que chegaram bêbados de um show de jazz. Ela enlouquecida por ele, parecia querer devorá-lo com beijos. Ele a largou e sentou ao piano.

"Você nunca me viu tocar, né?"
"Não! Toca!"
"Vai na cozinha e pega whisky pra mim. Sem gelo. Quer que eu toque o que?"
"Não sei... o que cê quiser"

Quando ela chgou na cozinha, ele já tocava Bach, a sonata em B menor, com o cigarro que acendera antes que ela saísse da sala no canto da boca. Ao voltar e entregar o copo de whisky, ela o viu segurar copo e cigarro na mesma mão, tomar tudo com um só gole, voltar o cigarro para a boca e continuar tocando. Não se conteve e riu ao levantar a voz para dizer: "Caralho! Cê parece Serge Gainsbourg tocando!". Ele dedilhou a introdução da Le poinçonneur des lilas e disse que ela era, neste caso, a Jane B dele: uma menininha linda, atrevida, voluptuosa, com aquela voz  gostosa, sussurrada sempre ao pé do seu ouvido. E entre whiskys e cigarros, ela não lembra bem como, gravaram duas músicas: La Decadense e Je t'aime moi non plus. Eram os dois arquivos que recebera via dropbox. 

O ímpeto de ligar para ele era forte. A vontade de beijá-lo e passar mais uma noite com ele também. Então ela não hesitou: pegou um vinho na cozinha, abriu, bebeu um gole generoso da garrafa mesmo, acendeu um cigarro, deu um trago e mandou um whatsapp para uma amiga: "Dani, vamos no cinema, tomar uma cerveja, ou fazer qualquer coisa que vc queira? Chama teu namorado e toda a galera que quiser. Agora! Mon Serge na área. Melhor evitar o PELIGRO". 

domingo, 6 de abril de 2014

Mendigo do Amor

Sete horas da manhã. A caminho do trabalho, ela é abordada pelo mendigo sentado na calçada de uma avenida cartão postal da cidade. Ele se preparava para mais um dia de trabalho (a mendicância, no caso) com um sorriso que não se vê no rosto de nenhum engravatado, ou mesmo de ninguém com vestes mais casuais nos ônibus, carros, metrôs, motos, etc.

- Oi, menina! É você mesma?!
- Oi! Sou eu sim! Como o senhor tá?
- Tô bem, graças a deus! Correndo pra trabalhar?
- Pois é, né? Tô.
- Eu também... hahaha... Por aqui mesmo. Trabalho de casa.
- Aí eu vi vantagem...
- Menina, cê é a namorada nova do Jards, é?
- Namorada nova?! Pô, cara, eu nem sabia que ele tinha terminado com a antiga... Mas em todo caso, eu não sou, não.
- Ah, se ele ainda não terminou com essa mulher dele, devia terminar e te pegar logo.
- Hahahaha... Porra, como assim?! Deixa ele com a mulher dele!
- Olha aí! Mulher bonita, gente fina, sem frescura... Pelo tanto de óculos diferente que cê anda por aí, deve ser artista ou intelectual que nem ele, né?
- Ih, sou nada... E só tenho três óculos.
- Te acho melhor que a namorada que ele tá agora.
- Mas, vem cá, cê conhece a namorada dele pra falar isso?
- Não.
- Então! Se eles tão juntos, ela deve ser bacana, né?
- Mas tu gosta dele, que dá pra ver...
- Gosto sim. Muito. É um amigo bem querido.
- Ih... tá se fazendo de burra, mas tá vermelha... Cês já devem até ter se pegado.
- Não! Pára com isso, pô! Não quero ficar com o Jards, não.
- Por que, ué?
- Porque eu não tenho tempo pra nada. Nem pra ter mais uma coisa no que pensar. Aliás... vou correr lá porque eu não trabalho em casa como o senhor, né? Tchau, até mais.
- Vai com deus, fia.
- O senhor também.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vida no Campo



"Quem aquela psicóloga acha que é pra jogar verdades tão bem escondidas na minha cara?! Sim, eu como quilos de doces apesar de ter sempre as taxas de açúcar bem acima do saudável no sangue. E daí?! Também sempre arrumo novos amigos que não me dizem nada de novo e me irritam com o passar do tempo. E realmente é verdade que, no quesito amoroso eu sou o que se pode chamar de Miss Rivotril. E daí?! Aliás, odeio esse termo "amoroso" por que decerto não existe amor em grandes, pequenas ou médias cidades. Muito menos em comunidades isoladas em florestas, desertos, praias, ilhas ou o raio de civilização que o parta! Mas voltando ao raciocínio anterior, também é fato que eu me coloco em situações de risco, seja quanto a minha integridade física, mental ou profissional. Sistemática e compulsivamente. Por isso que eu me endividei comprando uma Harley (que não posso pagar) enquanto trabalho com algo que eu sei: já já vai me dar o costumeiro tédio que me fará largar tudo e procurar algo diferente, pro ciclo recomeçar. Sim: é tudo fuga. Claro que é. Mas é a minha maneira de, cinicamente, esperar meu momento de epifania, quando eu finalmente hei de descobrir o que quero da vida."


"Je n'ai besoin de personne
En Harley Davidson
Je ne reconnais plus personne
En Harley Davidson
Je vais à plus de cent
Et je me sens à feu et à sang
Que m'importe de mourir
En Harley Davidson"

"Ah, como eu queria ser linda como a Bardot..."


"Cara, como a vovó mora longe! E o caminho continua deserto. Aliás, até os buracos continuam no mesmo lugar (só que maiores), nessa porra de estrada. Bom... a vantagem é que dá pra dirigir sem capacete e com fone no ouvido. E se vier um lobo, eu atropelo. Fodam-se os baderneiros protetores de animais! Eu tenho uma Harley Davidson, afinal."

"Gente! Mas o que essa porta faz aberta?! A vó esquece a porta aberta, aí os bichos da floresta entram e destroem tudo. Velho, quero ver se ela esquecer de de carregar o rifle algum dia... Pior são os lobos! Algo como aquela história sem nexo da tataravó pode acontecer. Fico pensando: ninguém, nenhuma criança, nunca estranhou o fato do lobo não ter mordido a tata e a avó dela? Nem ter digerido? E principalmente: como é possível existir possibilidade de sobrevivência dentro do que seria o intestino de um animal bem menor que as duas?! Claro que a história não é essa, mas os tios da tata que a escreveram insistiram em contar assim. Ou meio que assim. Não sei ao certo. Essas tradições orais são interessantes... Eu devia ter me especializado e tentar viver do estudo dessas coisas..."

"Ah vá!! A porta foi arrombada?! Jura?! E saquearam a adega?! Poxa, sumiram com aqueles vinhos espetaculares, os whiskis... e os licores da vovó?! Sumiram todos! Meldeeels!! Levaram as compotas!! Aliás, não tem comida! E todas as esculturas e cestas de palha também sumiram! COMO ASSIM?! Rolou um assalto a uma casa perdida no meio da floresta! Que muito surreal! Ah, que vontade de falar, gritar, urrar, fazer uma cara feia dessas de quem tá espumando de raiva... Mas pra que, né?! Afinal de contas, se nem a vovó tá aqui, quem estaria? Isso aqui é a terra do esquecimento e da solidão... Bom, ela deve ter ido dar queixa na delegacia da cidade. Acho que, mais tarde, vou lá procurar notícias".

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Rosa, o checklist

Trampo, trânsito, cidade, sono, torpor. 
Lembranças no bolso da saia. 
TPM, jazz, cervejas, cigarros, sono, calor. 
Noite, bar, barba, rua, carros, banho, vapor. 
Lembranças no solado da sandália.
SMS, ligações, conversas, mesmos problemas, mesmas soluções, dor de dente.
Pena, rosa, saudade, sexo, voz, samba, cigarro.
Um livro, um café, um chiclete, o vermelho do carro.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cantando em Serviço



Chico canta: Como beber dessa bebida amarga? Tragar a dor, engolir a labuta? Mesmo calada a boca, resta o peito...

Caetano rebate: Você não está entendendo quase nada do que eu digo. Eu quero ir-me embora! Eu quero é dar o fora!

Chico continua: Todo dia eu só penso em poder parar. Meio-dia eu só penso em dizer “não”. Depois penso na vida prá levar e me calo com a boca de feijão...

Kátia lamenta: Não está sendo fácil viver assim...

Jamil surta, levanta-se e abandona o trabalho: Chau! I have to go now...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A vida secreta softwares de edição de texto

Tudo corria tranquilamente na pasta de caracteres de um software de edição de textos. Fim de sexta-feira: os processadores já estavam relaxando. Mas apesar desse contexto, a senhora Helvetica estava preocupada. Ela aborda uma jovem fonte que acabava de ser salva naquele diretório e a convida para um café:

Helvetica: Tem um assunto me afligindo... posse te perguntar uma coisa?

Nova fonte: Claro...

Helvetica: Você tem namorado?

Nova fonte: Tenho.
(Hein?!)

Helvetica: Ha quanto tempo vocês estão juntos?
(Melhor comer pelas beiradas. Vai que eu assusto a menina...)

Nova fonte: Hmmm... bastante. Uns 2 anos e meio.
(Onde ela quer chegar com isso, gente?)

Helvetica: E você vai muito na casa dele?

Nova fonte: Vou, ué...
(Que papo estranho! Medo!)

Helvetica: Isso que eu queria entender: por que você vai lá?

Nova fonte: Porque é perto de casa. É caminho pra casa na volta do trabalho, por exemplo. Se fosse longe, eu pediria pra ele ir lá em casa. 
(Eu, hein...)

Helvetica: Ai, é porque a Verdana...

Nova fonte: QUEM?!

Helvetica: A Verdana, minha filha que tem a tua idade...

Nova fonte: Ah tá. Verdana, claro... Que nome... bonito.
(Mas que porra de nome é esse?!)

Helvetica: Minha filha atravessa a cidade todo dia, debaixo de chuva e trânsito pra ir na casa do namorado. Perguntei pra ela por que e sabe o que ela disse?! Que era porque lá ela tinha mais liberdade para transar com o namorado. 

Nova fonte: Poxa vida...
(Que assunto constrangedor! Não acredito que eu estou ouvindo isso! Tem que passar alguém por aqui pra cortar o assunto. Passa, por favor... Fezes! Não vai passar ninguém, pô?!) 

Helvetica: Não entendo por que ela falou isso. Eu sei que os jovens de hoje em dia transam cedo e tudo, mas eu não entendo...

Nova fonte: Hmmm...
(A menina já falou que transa com o cara, e que vai lá por que se sente mais a vontade. Ok. O que mais essa senhora precisa entender?!?! E outra: 24 anos é "cedo"?! Ui!)

Helvetica: Por que ela precisa ir tão longe? Por que ela não chama ele pra ir em casa? Eu não me sentiria muito bem, mas ela pode ficar com o namorado, por exemplo, quando eu for sair com meu marido, né? Não entendo por que ela não se sente a vontade em casa! Por que? Me fala fala, você que tem a idade dela!

Nova fonte: Ah... sei lá... cada um tem um tipo diferente de relação com os pais e com namorados, né? Tipo... evangélicos, judeus e islâmicos mais ortodoxos e até católicos tipo os da TFP, por exemplo, transam só depois do casamento...
(Sei lá, pô! A casa é tua! Coitada da Verdana, gente! 
Ai, tia! Libera o Word pra menina! Só diz pra ela instalar o anti-vírus e o corretor ortográfico. Também aconselhe a moça a não salvar nada)

Helvetica (irritada): Ah, mas você já viu que não é o caso, né?! Por exemplo: você transa com seu namorado?
(Essa menina quer me enrolar!)

Nova fonte: HÃ?!?!?!?!?! Hmmm... é... eu... Hã?! O que foi mesmo que a senhora perguntou?
(Como assim?!?!?! Ela não tá me perguntando isso! 
Ah! Ouço passos! Graças a Deus! Chega logo, seja lá quem for! Esse papo tá tomando um rumo cada vez mais constrangedor!)

Salva pelo gongo! O salvador da pátria, sr. Times New Roman, chegou na sala do café e começou a falar de trabalho. 


domingo, 30 de maio de 2010

Notícia que não sairia no jornal

Sete horas. Toda manhã de dia útil, Maria Qualquer estava lá no viaduto da rua Pedroso, na calçada oposta à do albergue de mendigos. Ela olhava a 23 de Maio engarrafada. Toda manhã. Sempre no mesmo horário, sempre com o mesmo olhar, sempre do mesmo ponto, sempre na mesma posição.

Uma manhã qualquer, as sete da manhã, Maria espreitava, como sempre,  a 23 de Maio congestionada. Do mesmo ponto do viaduto da Rua Pedroso, mas em posição diferente: sentada na grade, pernas balançando em direção à avenida lá em baixo e os "olhos embotados de cimento e lágrima". Transeuntes paravam, olhavam e não diziam nada. Apenas um par de moças comentou:

"Que horror! Acho que ela vai pular. Eu ajudaria, mas não dá por que senão me atraso para o trabalho".

E todos os que estavam parados ouviram. Alguns olharam para o relógio, outros só saíram. E tudo correu normalmente durante o horário de rush no metrô São Joaquim, no ponto de ônibus, nas lojas, no McDonnald's e - quiçá - nos hospitais da região.

E o trânsito na 23 de Maio? Continuou carregado. Mas ninguém soube ao certo se Maria Qualquer chegou a cair na contramão atrapalhando o tráfego. Tem coisa que não sai no jornal. O fato é que ela nunca mais apareceu por lá.

sábado, 24 de abril de 2010

Monetarizando e Erotizando

É digno de piada (ou lástima?), mas estava na home de um grande portal um dia desses. "Capital Erótico: você sabe o que é? Sabe se tem?" E lá estava uma foto de Carla Bruni ao lado de Michelle Obama (essa mesma que está aí do lado). Aliás, a primeira linha do artigo já dizia que o presidente dos EUA tem capital erótico.

Mas o que é isso, afinal? É um termo que Catherine Hakim, pesquisadora de sociologia da Escola de economia de Londres, cunhou para referir-se a uma "combinação de atração física e social nebulosa, mas crucial". E tudo se resume aí. O capital erótico - este importante "ativo pessoal" - inclui além da beleza, o sex appeal, o charme e as habilidades sexuais. E esse capital é, segundo a intelectual da nossa época, um dos mais importantes atributos que uma pessoa (especialmente se for mulher) pode ter. É uma questão de lei da oferta e da procura: falando em bom português, a cultura é sexualizada, as pessoas transam mais e valorizam mais quem parece ser melhor na cama.

O mais interessante é que existem pesquisas a respeito. A teórica cita que "há uma diferença de 25 pontos percentuais em ganhos médios entre as minorias de pessoas atraentes e não atraentes. Esse impacto pode ser tão grande quanto o vão entre ter um diploma ou não ter qualquer qualificação – apesar de estar bem abaixo da inteligência como determinadora dos resultados da vida. "

Seria isso verdade? Mentira? Só machismo mesmo? Sexismo que ultrapassa as fronteiras do gênero? O fato é que esta é uma teoria na mesma linha daquela que diz que pessoas com nomes incomuns se dão melhor na vida. Elas ignoram uma série de processos sociais (e até a tal da "concentração de renda"). Mas isso é outra história.

De qualquer modo, é importante pensar em um ponto: desprovidos de qualquer conceito ou código moral estruturado o suficiente para se sobrepujar à importância da aparência, sobra alguma coisa além da beleza?

Deixo meus gatos pingados (leitores) com o link do artigo (o problema é que é só para assinantes do portal): http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/prospect/2010/04/19/capital-erotico-voce-sabe-o-que-e-sabe-se-tem.jhtm

sábado, 27 de março de 2010

Inventivas e Inovadoras dicas de Segurança dos Habitantes da Urbe


Sábado, por volta das 4h da tarde. Trecho entre as estações São Bento e Paraíso, mais uma vez no metrô paulistano. Uma moça e um rapaz entram no trem desviando das milhares de sacolas e pessoas que voltavam das compras na famosa 25 de Março. Acomodam-se perto da porta fechada e começam um diálogo que é, no mínimo, de utilidade pública.

Moça: Pois é. Trabalhar aqui no centro é super complicado, por que você vem toda bonitinha e bem vestida pra empresa, mas na hora de ir embora fica morrendo de medo de sair na rua. Sobretudo pra vir pro metrô. A partir das seis horas, fica cheio de trombadinha, bêbado, nóia...

Moço: Ah sim. Pra roubar bolsa, celular... Mas como você faz pra voltar?

Moça: Então... eu sempre voltava com uma amiga que mora perto de casa. A gente pegava o ônibus juntas, ali perto do Anhangabaú. Mas como ela entrou de férias esse mês, agora eu tô voltando pra casa de metrô.

Moço: Ué, mas você não falou que tem medo?!

Moça: Então, menino! Desenvolvi uma técnica pra ir tranquila pro metrô. Um dia eu tava saindo do trabalho mais tarde e não tinha ninguém pra ir comigo aí eu tava na rua e resolvi bancar a doida. Cheguei na rua comecei a chacoalhar o guarda-chuva e gritar: "Eu quero é que alguém venha aqui tentar me assaltar! Eu quero, porque eu tô louca pra pegar um... Vou bater! Vou bater até arrancar sangue!". Meu, o pessoal começou a se afastar de mim. Abrir alas, sabe? Aí eu vi que tava funcionando e continuei: "Eu quero! Se alguém chegar perto eu arrebento! Não gosto de ladrão! Vou bater até matar!". Fui gritando e gesticulando até a estação. Funciona, viu? Ninguém chega perto de mim da Praça do Patriarca até aqui.

Moço: Não acredito! Você tá fazendo isso todo dia?!

Moça: Tô.

Moço: Meu, como assim?! Você não tem vergonha de...

Moça: De não ser assaltada?! De não apanhar gratuitamente de nóia?! Eu não! Eu sei que a minha estrutura psicológica tá super bem, então não tenho problema nenhum em fingir de louca.

Particularmente, adorei a idéia. Ficou a dica. Quando for necessário, certamente farei o teste.


quarta-feira, 3 de março de 2010

Discovery Subway


O melhor da cultura pop atual dentro do transporte público.

Trecho entre a estação Sé e Marechal Deodoro, linha vermelha do metrô. Eram sete horas da manhã quando duas moças e um rapaz conversam. Enquanto isso, uma intrometida qualquer escuta o colóquio alheio:

Moça 1: Com todos esses problemas de aquecimento global, programa nuclear do Iraque e tal, todo mundo vai morrer. Vai ser que nem naquele filme, o 2012.

"Iraque fazendo programa nuclear? Será que ela quer dizer Irã?"

Moça 2: E vocês sabiam que esse negócio de 2012 é de verdade? Uma lenda asteca diz que o mundo vai acabar em 2012, no calendário deles. Vai acontecer que nem na vira de 99 pra 2000: uma pá de gente vai se matar, achando que o mundo vai acabar.

Rapaz: E ainda tem uns cara que mandam a galera se matar. Que nem aquele Inri Cristo dos EUA: mandou os cara se matar e eles se mataram. Aí depois, quando virou o ano pra 2000, foi pedir desculpa.

"INRI CRISTO DOS EUA?! Inri Cristo virou franquia ou tem modelo exportação?!"

Moça 1: É, mas dá medo mesmo é a bomba do Iraque. Se aquele presidente soltar as bombas, só vai sobrar as baratas. Vocês sabiam que só as baratas conseguem sobreviver a uma bomba atômica?

Rapaz: Duvido! Porque por mais que a bomba em si não faça mal, e se os prédio e as pessoas caírem em cima delas e esmagarem as cabeças?

Moça 2: Elas continuam vivas! Eu vi no Discovery Channel que as baratas vivem até 7 dias sem a cabeça.

E na estação Marechal Deodoro o trio desceu.

OBS: eventuais erros gramaticais se fazem presentes em prol da fidelidade ao jeito zé-trenzinho de falar.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Conversa de MSN

Carlos diz:
tá sol aí hj?

Carlas diz:
não. tá tendo um tufão. não sei oq eu to fazendo na frente do computador.

Carlos diz:
é, aqui nevou 40 cm, nao consigo sair de casa, é por isso que estou no msn

Carlas diz:
poxa! q tédio. Mas deixa eu ir lá. O teto tá desabando. Vou ficar numa posição bacana pros bombeiros me acharem. Com sorte eu apareço no Fantástico.

Carlos diz:
boa sorte, então. bjo

Carlas diz:
vlw. bjs

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Compre Batom

Era mais uma tarde qualquer em que ela saia de casa para a faculdade. Mochila nas costas e aquela pasta A3 cheia de desenhos e pinturas em nanquim. Pensava provavelmente no que poderia pintar se a professora encomendasse mais uma pintura em pontilhismo. E seguia mergulhada naqueles pensamentos de estudante no começo da faculdade.

Ela nem via direito o que se passava ao redor (era distraida até demais, a menina) e foi exatamente por isso que se assustou tanto.

Mendiga: Ô menina, dá teu batom!

Menina: O que?!

Mendiga: Teu batom. Esse que tá na tua boca! Eu quero ele agora.

Menina: Mas que batom?!

Mendiga: Esse aí que cê tá usando...

Menina: Mas não é batom. É minha boca. Ela é assim mesmo.

Mendiga: Vermelha desse jeito?! Sem batom?

Menina (esfregando os lábios): É sim, olha! Minha boca é vermelha mesmo...

Mendiga (intercalando olhares surpresos entre a boca e a mão branca da estudante): Valei-me, nossa senhora! Tua boca é bem vermelhinha mesmo.

A velha não se conteve e se precipitou para esfregar os lábios da menina com os dedos.

Mendiga: Que boca linda você tem! Parabens, viu? Cê faz alguma coisa pra ela ficar assim?

Menina (assustadíssima, quase petrificada): Não. Ela é assim desde que eu nasci...

Mendiga: Parabéns.

Menina: Brigada.

E o ônibus chega ao ponto. Por um segundo, a estudante pensou em deixar o ônibus ir: assim ela poderia voltar para casa, lavar a boca com seu sabonete. Mas se o fizesse, ela se atrasaria para a aula. Decidiu subir no ônibus: lavaria a boca ao chegar na faculdade. Sim, aquela era de fato era a opção mais nojenta, entretanto naquele tempo, a menina ainda era empolgada com a possível futura profissão, responsável e pontual.

domingo, 3 de junho de 2007

Como Mamãe já Dizia - questões existenciais


Um post seqüencial. Falei que escreveria sobre os ditos hispanicos de mi madrezita e aqui estou cumprindo a promessa. Como já mandei as frases do meu pai nas questões profissionais, aqui mando as da minha mãe no que concerne aos relacionamentos interpessoais (em geral). Entonces empiezemos.
  • "Entre el dicho y el hecho dicta mucho trecho": sabedoria popular boliviana. Acho que não tem equivalente em português. Tem?

  • "Aunque se vista de seda como macaco se queda": essa máxima quer dizer que estilo é tudo. Então pára de dar pinta, wanna-be-bee.

  • "Has lo que te de la santissima gana": um "whatever" hispanohablante e mais prolixo. ADORO.

  • "Tu eres muy sin gracia": o que tem de gente chata por aí...

  • "Es que el cojo hecha la culpa al empedrado": outro dito popular boli. Fala sobre terceirizar a culpa. E o mais impressionante é que mesmo quem critica essas coisas anda sempre hechando la culpa de su cojera al empedrado.

Bueno... that's all, folks. Se eu lembrar de outra, retomo o post.


quarta-feira, 30 de maio de 2007

Como meu Pai já Dizia - Questões Trabalhistas


Caí de paraquedas no mundo dos adultos. As vezes é (bem) chato mas na média dá pra levar. E o melhor de tudo é que agora eu já ganhei maturidade o suficiente para entender alguns ditos do meu sabio papai sobre o mundo do trabalho e suas relações. Citarei aqui a algumas pérolas:
  • "Quem trabalha demais não tem tempo pra ganhar dinheiro": constatei empiricamente que é verdade.

  • "Presta não" (leia-se com sotaque nordestino. Mas aquele sotaque de verdade, não aquela coisa estranha das novelas da Globo): é um jargão dele. Decidi adotá-lo como lema de vida. Se o negócio vai dar merda, é melhor pular fora o quanto antes. Evita o stress e a fadiga, exaustivamente já citada pelo carteiro Jaiminho.

  • "Dinheiro não é problema. Problema é a falta dele": todo mundo sabe disso. Mas não custa repetir. Existe também a variante "dinheiro não é problema, é solução". Entretanto a versão de papai é mais estilosinha.

  • "Por mais que você esteja certa, não conteste um doido, não..." (também leia com sotaque nordestino): mandar falar com a mão é a melhor solução. Assim como usar toda a retórica possíveis para convencer os outros. Ser direto e sincero demais costuma ser interpretado como agressividade. É outra constatação empírica.

  • "Esse negócio de não ter tempo não existe não": sempre achei que falta de tempo fosse coisa subjetiva. Agora eu tenho certeza disso.

Por hora lembrei desses. Mas quando lembrar de outras pérolas da sabedoria paternal, postarei. E depois vou dedicar também um post aos (fantásticos) jargões hispanicos de mi mamá. Gente grande não é tão chata assim, sabia? De vez enquando eles são muito divertidos, até.

domingo, 20 de maio de 2007

As Rixas Alheias

Um pequeno protesto contra os absurdos cotidianos

Eu tenho a teoria de que toda loira nariguda parece com minha amiga Flor: de Suzane Von Richtofen a Barbara Streisand. Acontece que a Luana Piovani não é nariguda. E é realmente loira, não tem cabelo castanho claro, avermelhado, meio loiro, meio burro-quando-foge como o da Flor.

Enfim, ela não parece com a Piovani. Agora avalie você o quão bêbado estava um homem que pensou que a menina REALMENTE fosse atriz. Seria engraçadíssimo, se o tal bêbado não fosse um fã fervoroso do Caetano Veloso, a quem a moça chamou recentemente de "Banana de Pijama".

Contemos o causo. Estavam Flor e um amigo num dos bares da Roosevelt quando o bêbado apareceu. Berrando, tentando arranjar briga com qualquer um e o tempo todo olhando para ela. E depois de um tempo, ele realmente estava assustando minha amiga, que não se acalmava nem com as garantias de segurança do amigo.

Bêbado: Você não acha o Caetano Veloso demais?

Ela responde que que sim, mexendo a cabeça.

Bebado: O Caetano é foda. Ele não come qualquer uma, não, sabia? Você soube da música? Luana Piovani... que porra de Luma Piovani porra nenhuma...

E caiu numa gargalhada convulsiva. Aliás nesse momento, o bêbado quase caiu literalmente.

Depois de se apoiar na parede e recuperar o equilíbrio, o bêbado se apoia na mesa e tenta pegar a latinha de Guaraná que Flor bebia.

Bêbado: Que é isso?

Amigo da Flor: Tira a mão daí.

Bêbado: Você, menina, é uma vagabunda. É isso que você é: uma pu-ti-nha. Caetano é foda! Ele não faria música nenhuma pra uma atrizinha de merda. Ele... ele ficava com todo mundo antigamente. Ele já amou o Zé Celso. O Zé Celso não é foda?!

Flor (com voz quase sumida e coração quase saindo pela boca): Am... aham.

E o bebum apontava o dedo para a cara da menina. Enquanto isso, o amigo da Flor fazia, com as mãos, uma barreira entre ela e o bêbado.

Bêbado: O Caetano era um tarado. Pra ele comer uma mulher, tinha que ser uma mulher fodona. Ele amava o Zé Celso. E uma atrizinha de merda da Globo não trabalha com o Zé Celso. O Caetano escreveu música pro Zé Celso. Mas porque ele é bom. Não é uma vagabundinha larga aí, não.

E Bate na mesa. A essas alturas, Flor já estava completamente murcha. Quase virando adubo. E eis que o bêbado tenta partir para cima dela. Mas apenas tenta, porque o heróico amigo de flor levanta e usa uma voz um tanto quanto incisiva ao pedir ao bêbado que se retirasse.

Mas o bêbado continua falando todo tipo de coisa sobre a vida sexual do Caetano Veloso, Zé Celso, Gilberto Gil, toda a galera da tropicália e da Contracultura brasileira. E também continuava supondo muita coisa a respeito da vida sexual e profissional da Luana Piovani.

Então eis que ele sai do bar, espantado pelo amigo de Flor. Quase chorando, quase caindo mas ainda xingando.

Bêbado: Sua vagabunda! Você tem sorte que eu sou um covarde e não vou te dar o que você merece por causa desse cara...

Depois falou algo tão enrolado que não foi possível inteligir. Mas foi embora.

Amigo da Flor: Não acredito que encostei nesse cara! Preciso lavar as mãos. Como ele fedia, meu!

Flor: Fedia, tinha bafo e quase me mata de medo!

Depois disso, ainda foi possível ouvir o bêbado cantando "Catia Flávia" pelas ruas...

domingo, 1 de abril de 2007

Surdez

Eu (cantando): "Sou um vento norte-americano forte, com um brinco de ouro na oreeeelha"...

Minha irmã: Oxe, bicha doida! É "negro", e não "vento".

Eu: Não é! É vento!

Minha irmã: Mas é teimosa... põe o cd e ouve.

E a música começa. A letra diz (Sr. Google garantiu):

"Eu sou o preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha"

Minha irmã: Tá vendo?!
Eu: Tô. É "vento"
Minha irmã: Mas é teimosa... é "NEGRO".

Sr. Google me fez concluir que eu e minha irmã estamos meio surdas.

domingo, 25 de março de 2007

Sobre o Grão de Bico

Especialistas em agrobusiness deram para falar que o futuro da economia está na soja. Bobinhos. Eu falo: o futuro não está na soja, mas no grão de bico. É tudo uma questão de tempo. Até porque a moderníssima tecnologia em genética vegetal ainda pode turbinar essa comidinha tão gostosa e que (pasme!) proporciona uma grande sensação de bem-estar. É... os entusiastas da culinária do Oriente Médio já sabiam que depois de um belo sanduíche de falafel e algumas pitas com homus todo mundo fica rindo a toa. Muito inocentes, eles sempre acham que comeram demais e estão meio "bêbados por excesso de comida". Não é nada disso: grão de bico (e sobretudo o homus) dá baratinho mesmo. É científico!

A equipe do Dr. Zohar Keren, especialista em alimentação e do botânico Simja Lev Idon, chefe do curso de botânica da Universidade de Jerusalém garantiu que é verdade! Eles comprovaram que o grão de bico contém um aminoácido conhecido como triptofeno que, em grandes quantidades, é capaz de produzir serotonida. É aí que mora a felicidade: esse tal aminoácido e a famosa serotonina são os ingredientes básicos do Prozac. É daí que vem a sensação de calma e felicidade que os adoradores do falafel com tahina e pita com homus sempre sentem.

Agora uma boa notícia para as boas moças casamenteiras e loucas por crianças: um bom prato de homus contribui para a ovulação e assim facilita a gravidez! Assim disse o dr. Abi Gofer, arqueólogo (!!!!!!!!) que fez parte da pesquisa. Então já dá para pôr aquele Santo Antônio na sua posição normal, jogar fora o cartãozinho de Santo Expedito, dispensar a brachá do rabino e o banho na mikve com a rabanit, bem como desmarcar aquele médico. É só correr para o restaurante árabe mais próximo e enfiar o pé na jaca. Um dia ainda vão inventar um pró-concepcional com insumo baseado no grão de bico. I tell you this.

Mas voltemos ao futuro da economia mundial. O grão de bico gera milhões de dólares nos países onde é largamente consumido. E, dizem as más línguas, que a espécie cultivada possui mais serotonina que a selvagem. Fantástico, não? A solução para os problemas do grandes produtores mundiais de commodities está na sugestão do professor Gofer: turbinar o grão de bico com mais serotonina. Aumentaria as vendas em bilhões. Quiçá isso poderia até ser a solução dos dependentes de anti-depressivos e drogas em geral, não? Ah sim... e o tal pró-concepcional que eu imaginei também movimentaria bastante dinheiro para a indústria farmacêutica.

Talvez resida no grão de bico até mesmo a solução para os problemas políticos do Oriente Médio. Afinal... gente nervosinha esses árabes e esses israelenses, não?! Deve ser tudo culpa da assimilação. O pessoal quer adotar um american-or-european way of life e assim abandona o consumo de comidinha tão gostosa e tradicional como o homus, receita que figura no cardápio regional há mais de 10 mil anos. Antigo, não?